Ir direto para menu de acessibilidade.
Página inicial > Histórico
Início do conteúdo da página

Histórico do Curso de Ciências Sociais

Publicado: Terça, 08 de Maio de 2018, 10h50 | Última atualização em Segunda, 04 de Junho de 2018, 12h21 | Acessos: 134

Memória histórica do curso de Ciências Sociais em Marabá*

A história do Curso de Ciências Sociais em Marabá tem início em 1994, quando o antigo Centro de Filosofia e Ciências Humanas, atual Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da UFPA, ofertou quarenta (40) vagas para composição de uma turma com habilitação para licenciatura e bacharelado. Entre 1994 a 1999, o curso funcionou em regime intervalar, sendo realizado no período de recesso letivo, com corpo docente vindo de Belém. Em 1999, uma segunda turma foi composta também em caráter intensivo ainda sob coordenação de Belém. Em meados do ano de 2000, a partir de uma discussão com a sociedade civil, foi desenvolvida e aprovada a criação do curso de Licenciatura em Ciências Sociais, em caráter extensivo, no Campus Universitário de Marabá. A elaboração do projeto pedagógico do curso foi realizada pelos docentes da UFPA do campus de Marabá. Este projeto foi submetido ao parecer do sociólogo Jean Hébette, também da UFPA, em Belém, que foi favorável à criação do curso. Sendo assim, o curso teve sua regulamentação aprovada pelo parecer nº 09/2003, de 01 de outubro de 2003, da Câmara de Ensino da UFPA.

Em 2013, com a criação da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), novos desafios foram colocados à Faculdade de Ciências Sociais do Araguaia-Tocantins (FACSAT), entre eles, a reforma e elaboração de novos Projetos Pedagógicos de Curso, uma aproximação ainda maior com a sociedade e a integração interdisciplinar das Ciências Sociais com as outras Faculdades do Instituto de Ciências Humanas. Nesse sentido, o Projeto Pedagógico é um elemento importante no movimento de constituição de nossa autonomia e identidade própria enquanto Faculdade dentro de uma nova universidade.

Em 2014, com o desmembramento de licenciatura e bacharelado, com base no Parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) Nº 09 DE 08 de maio de 2001, foi ofertada a primeira turma de Licenciatura em Ciências Sociais com quarenta vagas. Em 2015, ofertamos a segunda turma de licenciatura. Em 2016, a Faculdade ofertou a primeira turma em bacharelado em Ciências Sociais com 40 vagas. Já em 2017 foram ofertadas duas turmas uma de licenciatura (20 vagas) e uma do bacharelado (20 vagas).

A FACSAT no contexto do sul e sudeste paraense

As regiões sul e sudeste paraenses encontram-se no espaço oriental da Amazônia Brasileira. Trata-se de uma região que se destaca pelo dinamismo econômico e por profundas transformações da sua base socioprodutiva, motivada por uma forte intervenção estatal, a partir da década de 1960, que muda radicalmente o cenário regional anterior, a saber: o cenário de uma economia extrativista, com poucos vínculos extraregionais, floresta densa e povos indígenas. Em curto espaço de tempo, a região tornou-se objeto de uma expressiva expansão agropecuária, motivada por financiamentos e isenções da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), além da emergência da economia da mineração – seja através dos garimpos, como foi o caso de Serra Pelada, nos anos 1980, mas especialmente através da mineração industrial desenvolvida pela companhia VALE S/A, responsável pela exploração da maior jazida de ferro a céu aberto do mundo, localizada na serra dos Carajás (HALL, 1989).

Portanto, essa região deve ser compreendida em sua extrema complexidade desde os pontos de vista histórico, social, cultural e político. Estamos em uma das pontas abertas do sistema econômico mundializado. Nessa região há um fluxo contínuo de dinheiro, particularmente com o comércio exterior e com os investimentos estatais em infraestrutura, dentro de uma realidade em que os atores sociais estão em constantes processos de ajustamento e conflito em relação ao novo cenário econômico. Dentre outros atores sociais, incluem-se as novas e antigas oligarquias locais, o capital industrial e as empreiteiras do sudeste brasileiro, os novos e antigos movimentos sociais, os militares (que têm, em Marabá, um centro operacional importante). O resultado é uma região em processo de crescimento acelerado, com fluxos migratórios massivos, com preços inflacionados, sofrendo com uma especulação fundiária violenta na cidade e no campo, a progressiva proletarização das assim chamadas comunidades tradicionais, além de todos os conflitos sociais e exclusão que acompanham essas transformações.

Por isso, novas formas de contradições sociais de todos os matizes se configuraram e seguem se reconfigurando nesse processo de desenvolvimento; a região torna-se palco de intensos conflitos fundiários, devastação ambiental, massacre de etnias indígenas, camponeses, garimpeiros, desestruturação urbana, trabalho escravo, dentre outras mazelas sociais. Dessas contradições, surgiram miríades de focos de resistência e organizações sociais que compõem, em diversas frentes, forças políticas contra as mais diversas formas de opressão.

A região, vale lembrar, foi palco da Guerrilha do Araguaia, o principal movimento de resistência armada contra a ditadura civil-militar, na década 1960. Aqui temos um centro de intensas atividades do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), onde se conquistaram importantes assentamentos rurais, e foi nessa região, a menos de uma hora da cidade de Marabá, que aconteceu o Massacre de Eldorado dos Carajás em 1996, fato que assinala a extrema letalidade da violência estatal e, particularmente, das forças policiais estaduais do Pará. Além disso, deve-se ressaltar que o recurso a forças paramilitares por fazendeiros, empresários e oligarcas da região é muitíssimo recorrente (o Pará concentra 38% dos assassinatos do Brasil por conflitos no campo, segundo pesquisa da Comissão Pastoral da Terra) [1].

Outros importantes sujeitos sociais e políticos da região são os atingidos por barragens. Esse é o caso do município de Tucuruí, onde milhares de famílias foram deslocadas por ocasião da instalação dessa grande usina hidrelétrica. Existem projetos para instalação outra represa no Rio Tocantins, bem na área do município de Marabá. Entre os atingidos por barragens estão os índios da etnia Gavião, entre eles, os Parkatejê, os Kyikatejê e os Akrãtikatejê, sendo que estes últimos já haviam sido deslocados de Tucuruí e possivelmente serão atingidos novamente caso a Usina de Marabá venha a ser construída (PNCSA, 2010).

Além dos Gavião, outras etnias indígenas se encontram na região, na área de influência da bacia do Rio Tocantins (Asuriní do Tocantins, Parakanã, Suruí, Xikrin do Cateté, Anambé, Amanayé, Tembé, Turiwara (ISA), com seus territórios continuamente ameaçados por fazendeiros, agronegócio, pela mineração e todos os contínuos danos ambientais causados pelo modelo de desenvolvimento econômico aqui levado a cabo.

Enquanto zona de fronteira de expansão agrícola e de intensa atividade mineradora em plena Amazônia, aqui encontramos um dos mais importantes campos de batalha dos movimentos ambientalistas nacionais e estrangeiros, bem como a incorporação de valores e articulação política entre o ambientalismo em nível mundial e os diferentes movimentos sociais atuantes na região. O processo de desmatamento, contaminação das águas e formação de cidades sem estruturas de saneamento são consequências diretas de demandas do agronegócio e dos agentes econômicos que realizam o processamento de metais brutos aqui extraídos.

Nesse contexto, podemos ver o avanço do capitalismo mundial sobre os territórios tradicionalmente ocupados, a formação de novas identidades e transformação das antigas, a destituição de antigos potentados locais e a configuração de novas oligarquias em disputa. No encontro entre tantas séries históricas e suas contradições – que vão desde o local até o global, do “micro” ao “macro”, o curso de Ciências Sociais é fundamental por contribuir na compreensão das relações entre esses múltiplos fenômenos que, normalmente, são vistos de forma dispersa e fragmentária. Assim, o curso de Bacharelado em Ciências Sociais é imprescindível para a problematização das relações socioeconômicas culturais e ambientais que produzem desigualdades com profundos impactos nas dinâmicas locais.

Além de todos esses elementos apontados, temos um olhar atento para a história de ocupação da região Sudeste do Pará, marcada por diferentes ciclos econômicos que serviram de atrativo tanto para agricultores como para o grande capital que para cá migraram e se encontraram com povos indígenas e demais populações tradicionais aqui estabelecidos. Os diferentes ciclos de exploração de cristal de rocha, extrativismo vegetal, sobretudo o da Castanha-do-Pará (Brasil), implantação e expansão da pecuária, instalação dos Grandes Projetos na região, como hidrelétricas, mineradoras e guseiras, assim como exploração madeireira não se fizeram e não se fazem sem que haja conflitos entre os diferentes sujeitos que constroem essa região[2]. Esses conflitos se dão, entre outros motivos, pela diversidade de interesses e visões de mundo em disputa na construção da região. [3]

Neste sentido, os sujeitos e os processos de construção do que atualmente se chama o Território do Sudeste do Pará demandam diálogo com a Unifesspa para a discussão de problemas sociais, culturais, políticos e econômicos gerados a partir dessas disputas e conflitos que nele se configuram também como reflexo de um contexto mais geral em nível nacional e internacional.

Aspiramos, portanto, formar Cientistas Sociais pesquisadores e militantes atuantes na sociedade civil, diretamente na produção de conhecimento a partir da Sociologia, da Antropologia, da Ciência política e, também, na atuação militante de empoderamento junto aos sujeitos impactados na região, oferecendo a qualificação do debate político e social e as ferramentas de planejamento e de organização social.

 


[1] Cf. Comissão Pastoral da Terra. Conflitos no campo - Brasil, 2013. Coord.: Canuto, C.R. S. L. et al. CPT Nacional, 2013

[2] Cf. Hébette (1996) e Emmi (1999).

[3] Cf. Hébette (1996) e Emmi (1999).

* Texto retirado do Projeto Pedagógico do Curso de Ciências Sociais. 

registrado em:
Fim do conteúdo da página